quarta-feira, dezembro 08, 2010

tudo será

cai o inverno sobre a ilha
e a chuva sobrevoa aquilo que toda a gente chama
passado

há quem se sente á beira das pedras
á procura de alguém
outros
á procura de ninguém
e há os que se sentam por acidente
eu observo o passado porque o passado
embora liquefeito como as chuvas representa
o costado da minha vida e o rosto de tantas outras

as circunstâncias do hoje são repercussões do passado
é preciso compreender as lições do tempo
e saber que tudo renasce e se renasce é porque
nada se faz ou se fez sem sacrifício tudo se transforma

depois disto e só depois
podemos compreender o presente e então aí
virá o momento de deixar o passado voar
como voam as cinzas dos vulcões satifeitas

segunda-feira, novembro 29, 2010

A jeito


pergunto que pólen é este que cai quando
ainda não é primavera?
ou porque chovem folhas contra as paredes?

a palma das mãos a destilar dentro da estrada
e a marcha das horas a passar rente ao vento.
um corpo que se ergue mais alto que as partículas
e uma guitarra a tactear a janela, á meia-noite!
são silhuetas ardendo contra os lençóis da noite,
como se no mar das gaivotas existisse um jardim,
uma casa, ou uma nuvem na qual pudéssemos
perder o rosto e o corpo. sei lá, voar digo! só isso.

e há esta música e cheiro a primavera!
como pegadas frescas de uma mulher a caminhar
na claridade dos olhos. uma sombra de água
capaz de inundar o mais deserto dos homens!!!

segunda-feira, novembro 22, 2010


enche o peito com os sais da vida.
deixa a voz do ar dobrar a geografia dos pulmões.
esquece o que aprendeste e deixa-te ir, em queda livre.

precipita-te sobre a água e desfralda as vestes
como a nau que se perde sem medo na noite e mareia
no caminho do luar á procura de uma terra que dorme.
atravessa a fronteira entre o cansaço e a esperança.
ignora a melancolia e a ilusão na espuma do olhos.
uma lágrima é um corpo amigo, um sonho confessado.

continua a lavar as mãos no sal até ao romper das veias.
escolhe tu o precipício! confia ao horizonte a tua voz!
faz desta viagem um porto de partida e dança no céu.
e, navega, navega por esse infinto espelho de seda...o mar!!

quarta-feira, novembro 17, 2010

da Paz


foto:minha

a folha, mesureira,
como um gesto atracado ao branco das últimas horas.

na pele passam os violentos fumos dos espaços,
vozes suspensas, ruas e ruas de espectros onde tudo
é tão vazio como as palavras que acabo de rasgar.

contemplo cada instante á margem da cidade.
descrever a cidade é ficar horas a fio a cospir saliva
para um espelho e temer a identidade do reflexo.

sento o rosto na multidão da paisagem e bebo a terra
que se movimenta junto ás manhãs e adoeço,
como quem adoece e se agarra ao último fio de vida.

deixem-me assim, aninhado, em lume brando,
agarrado ao aroma que despe a planície e longe,
bem longe da luz queimada da cidade...